Capítulo 1: O Homenzinho do Rádio

A poeira fina e avermelhada do sertão baiano teimava em cobrir os móveis da Casa Grande dos Sobral, um casarão imponente que se erguia como um monumento ao poder e à tradição em meio à paisagem árida da década de 50. As paredes, de um branco que já fora imaculado, agora ostentavam as marcas do tempo e do sol inclemente. Varandas largas circundavam a casa, oferecendo refúgio da quentura, com suas redes preguiçosas balançando ao ritmo lento da brisa vespertina. Era ali que a vida acontecia, ou melhor, onde a vida era observada passar.

Dentro, o luxo era evidente, mas de um tempo passado. Móveis escuros e pesados, de jacarandá maciço, tapetes persas desbotados e retratos sisudos dos antepassados da família Sobral. O epicentro da vida social da casa, no entanto, não era a sala de jantar nem o escritório do patriarca, mas sim um canto da vasta sala de estar. Ali, sobre uma mesinha de canto, reinava um rádio de madeira escura, um imponente aparelho da marca Semp, com seus botões de baquelite e um grande tecido trançado cobrindo o alto-falante. Era a janela dos Sobral para o mundo, a fonte de notícias, radionovelas e da música que chegava do Rio de Janeiro. E era em frente a ele, no chão de ladrilho frio, que os mundos tão distintos de Mateus Sobral e Eduardo Souza se encontravam.

— Não toca no meu forte! — bradou Mateus, o herdeiro dos Sobral, um menino de oito anos cujos trajes de linho branco contrastavam com a pele bronzeada de Dudu. Ele agarrou o brinquedo de madeira, protegendo-o com o corpo.

Dudu, aos sete anos, recuou. Seus pés descalços e as roupas remendadas não o impediam de sonhar. Ele não queria o forte, apenas o soldadinho de chumbo que havia caído para fora da muralha. Ele não respondia, apenas observava, com a paciência que aprendera com a mãe.

A mãe, Maria Souza, passava um pano úmido no aparador, tentando ignorar a cena. O corpo franzino movia-se com uma eficiência silenciosa, resultado de anos de trabalho sem descanso. Seus olhos cor de mel, no entanto, não perdiam um único detalhe, nem do filho, nem da sombra que se aproximava pelas suas costas.

— Maria, minha flor do agreste... — A voz de Antônio Sobral era um veludo, macia e envolvente. Aos quarenta anos, ele era a imagem da elegância do interior: calças bem vincadas, camisa de botão impecável e um cheiro de lavanda que precedia sua chegada. Seus olhos, de um azul surpreendente naquela terra de gente morena, fixaram-se em Maria. — Deixe este móvel em paz. Já está a brilhar mais que o sol lá fora.

Maria não se virou. — Precisa terminar, patrão. Dona Joana gosta de tudo em ordem antes do jantar.

— Joana... — ele suspirou, aproximando-se mais, sua mão pousando de leve no quadril dela. — Joana não tem a metade da sua beleza, do seu cheiro de terra e de mulher.

O corpo de Maria enrijeceu. — Por favor, seu Antônio. O menino está aqui.

— Ele não entende dessas coisas. É só um menino. E o seu marido, onde anda? Ah, sim... no sul, tentando a sorte. Sorte tenho eu, de ter você por perto.

Ele a pressionou contra o móvel. Maria fechou os olhos com força, a mente buscando uma rota de fuga. O cheiro de cachaça misturado à lavanda revirou seu estômago.

— Antônio! O que significa isto?

A voz de Joana Sobral, estridente e cortante, quebrou a tensão como um vidro. Feia, como diziam as más línguas, mas com a altivez de quem nasceu dona de tudo, ela surgiu na porta da sala. Seus olhos pequenos e escuros fuzilaram primeiro o marido, depois a empregada.

Antônio afastou-se de Maria num salto, ajeitando a camisa com uma naturalidade ensaiada. — Querida! Estava apenas a elogiar o trabalho de Maria. Veja como brilha o aparador! Uma mestra no que faz.

Joana não se convenceu, mas guardou sua fúria para mais tarde. Vingança era um prato que ela apreciava frio. — Parem com essa barulheira, meninos! — ralhou, mudando o foco. — Mateus, guarde seus brinquedos. E você, Eduardo, fique quieto. Vamos ouvir o noticiário.

Antônio, aliviado, caminhou até o rádio. — Sim, querida, uma ótima ideia. Ver o que dizem do nosso presidente.

Ele girou o botão e, após um chiado, a voz solene de um locutor da Rádio Nacional preencheu o silêncio tenso:

“...com profundo pesar, a Rádio Nacional informa a toda a nação brasileira. Faleceu na manhã de hoje, em seus aposentos no Palácio do Catete, o excelentíssimo senhor presidente da República, Getúlio Dornelles Vargas.”

Um silêncio pesado caiu sobre a sala. Joana levou a mão à boca, seus olhos se enchendo de lágrimas genuínas. Antônio, pálido, sentou-se na poltrona mais próxima.

— Meu Deus! Não é possível! — exclamou ele. — Uma tragédia! O pai dos pobres, morto! O que será de nós? A oposição conseguiu o que queria. Os corvos do Lacerda... eles o mataram!

— Foi um suicídio, Antônio — disse Joana, a voz embargada. — Eles disseram. Ele deixou uma carta... O país está perdido! Estamos à beira de uma guerra civil!

A discussão política se acendeu, com Antônio gesticulando, culpando inimigos invisíveis, e Joana lamentando o fim de uma era. Mateus olhava para os pais, imitando a gravidade da situação sem entendê-la. Dudu, por sua vez, observava a cena de um ângulo diferente. Ele nunca vira gente rica chorar. A emoção era tão palpável, a dor pela perda daquele homem tão importante era tão grande, que uma ideia brotou em sua cabeça pequena e sonhadora. Com a convicção das crianças, ele declarou em voz alta e clara:

— Um dia, eu vou ser presidente também.

A frase pairou no ar por um instante antes de ser rompida por uma gargalhada estrondosa de Antônio. A risada, alta e genuína, contagiou Joana e até Mateus, que ria sem saber o porquê.

— Presidente! — exclamou Antônio, enxugando uma lágrima de riso. — Ótima, menino! E eu vou ser o Papa!

Dudu ficou confuso. O que era "papa"? Seu olhar desviou-se para a origem de toda aquela comoção: o rádio. A voz do homem continuava a sair de lá, solene e triste. Como podia? Aproximou-se do aparelho, curioso.

— Seu Antônio... como é que ele fala aí de dentro?

Antônio viu ali a chance de se divertir. Puxou Dudu para perto, baixou a voz como se contasse um segredo de Estado e, com seus olhos azuis faiscando, começou a inventar.

— Está vendo esta caixa, Dudu? Aqui dentro, nós temos um escravo. Um homenzinho bem pequenininho, que trouxemos da África. Ele é mágico. Nós damos comida a ele uma vez por semana e, em troca, ele nos conta tudo o que acontece no mundo. Ele conhece o presidente, os reis, os artistas... tudo. Mas não podemos abrir, senão a mágica acaba e ele foge.

A história foi contada com tamanha convicção que Dudu arregalou os olhos. Um homem preso ali dentro? Pequenininho? Aquilo era uma maldade. Ele ficou a observar o rádio, a testa franzida, a imaginação voando.

O jantar foi servido. Os Sobral comeram na sala de jantar, em pratos de porcelana, falando baixo sobre a crise política. Na cozinha, sentados num banquinho de madeira, Maria repartiu o que sobrara da comida dos patrões. Dudu mastigava devagar, os olhos fixos na porta entreaberta, observando a família rica e pensando no homenzinho aprisionado na caixa falante.

Na volta para casa, sob um céu coalhado de estrelas que pareciam muito mais próximas no sertão, a mão de Antônio encontrou o braço de Maria mais uma vez, perto do portão da propriedade.

— Pense no que eu disse, Maria. Seu marido está longe. Uma mulher bonita como você não pode ficar sozinha...

Ela puxou o braço com uma força que ele não esperava. — Meu marido volta, seu Antônio. E eu sou uma mulher direita.

Dudu, de mãos dadas com a mãe, viu a cena. Não entendeu as palavras, mas sentiu a raiva na voz dela e o recuo do patrão.

Em seu casebre de chão batido e paredes de taipa, a luz era de um único candeeiro. Maria pegou os restos da comida dos Sobral, cuidadosamente embrulhados numa trouxa, e repartiu em sete pratinhos de ágata. Seus outros seis filhos avançaram, famintos. Ela observava, de pé. Para ela, não sobrara nada. E mesmo que sobrasse, a fome dos filhos vinha primeiro.

Mais tarde, deitado na esteira ao lado do irmão mais velho, Pedrinho, Dudu não conseguia dormir.

— Pedrinho... — sussurrou.

— Que foi, Dudu?

— Hoje, morreu um tal de "Getúrio Pragas".

Pedrinho, aos onze anos, já um conhecedor das coisas do mundo, soltou uma risadinha. — É Getúlio Vargas, seu burro. E ele não morreu, ele se matou.

Dudu ignorou a correção. Havia algo mais importante. — Pedrinho, lá na casa do patrão tem um rádio. E o seu Antônio disse que tem um homem pequenininho preso lá dentro. Um escravo. Ele que fala as notícias.

Ele contou a história com os mesmos detalhes que ouvira. Pedrinho, que admirava a sabedoria dos mais velhos e a riqueza dos patrões, ficou em silêncio por um longo tempo. A convicção na voz do irmão era contagiante.

— Um homem... preso? — repetiu Pedrinho, impressionado.

— Sim. E eu acho que ele quer sair. Ele falava tão triste hoje...

Um novo silêncio se instalou, quebrado apenas pelo som dos grilos lá fora.

— Pedrinho? — chamou Dudu novamente, a voz cheia de um propósito secreto.

— O quê?

— Eu tenho um plano pra salvar o homenzinho.


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